quinta-feira, 11 de março de 2010

Desencontros

     Era um magnífico dia de sol. Antonio – Toni, como lhe chamavam os pais italianos – curtia, inocente e impunemente, uma praia, já que ninguém é de ferro. Foi quando entrou em cena, deslizando por sobre a areia da praia com uma beleza extraordinária, e uma canga que delineava suas qualidades, uma verdadeira deusa de Ébano.

     Ela armou sobre a areia sua cadeira de praia, e, cuidadosamente, iluminou a praia com a sua beleza negra, ao remover a canga branca que ousava roubar do público aquela visão do paraíso. Sentou-se, saindo do campo de visão da maioria, e com isso privou Toni do prazer de desfrutar daquele colírio para seus olhos. Foi assim, pelo menos, que Toni – e, certamente, metade dos presentes – percebeu a chegada da moça.

     Toni não podia apenas esperar. Tinha que agir. Levantou-se. Mas, fazer o quê? Sentou, novamente. Ele não sabia como agir, mas não tirava os olhos daquela mulher única. Precisava, decididamente, fazer algo. Observou que, ao seu lado, ela começava a escrever algo na areia. Ele parou. Esperou.  Droga! O mar apagou. A maré estava enchendo, e ela, sem saber, pusera sua cadeira em rota de colisão com a subida da maré. Ela se levantou, para o deleite de toda a população masculina da praia, afastou a cadeira alguns metros do mar, e a colocou praticamente ao lado de Toni – o que quase o fez enfartar, e, certamente, matou os demais homens e uma ou outra mulher de inveja.

     Ela se sentou, novamente. Agora, bem aos olhos de seu mais devotado observador. Começou, novamente, a escrever algo. Logo, se delineou um belo “E”. Suspense no ar. Um “l”, seguido em seguida de um outro “l”… opa! Um ambulante, distraído, desmanchou tudo. Pediu desculpas, e só então viu a moça. Babou, quando a viu, quase lhe dava suas mercadorias, em pedido de desculpas, mas ela recusou. “Tá tudo bem, moço. Pode seguir seu dia.”. Toni já tinha ímpetos de ir surrar o cara. Quem lhe dava o direito de atrapalhar e, pior, se enxerir para a sua garota?

     Ela, enfim, recomeçou: “Ell”, parou. Olhou para ele, sutilmente. Ele, que observava de maneira nada sutil, tentando claramente xeretanto o que ela escrevia, desviou o olhar, sem graça. Ela retomou. Escreveu um “y”. Escrevia com uma bela grafia, e cheia de floreios, como a declarar que sabia o quanto era bela; “d” e, para o arremate final, “a”. Ellyda. Seria este o seu nome, pensou Toni.

     Já seria um bom começo, então, para uma abordagem. “Olá, Ellyda!”, “Como você sabe o meu nome? Andou me espionando?”, “Calma, eu só li o nome que você escreveu na areia!”. Não, talvez ela fosse menos paranóica, ou se sentisse um pouco invadida. “Oi, Ellyda!”, “O quê?”, “Oi, Ellyda!”, “Desculpa, mas, não me chamo Ellyda.”, “Não? Mas…”, “Esse é o nome da minha namorada.”. Cruel! Ou, talvez, em vez desta última declaração, “Não, não. É que acabo de saber que estou grávida, e estou tentando escolher o nome.”, “Ah, mas você já sabe qual o sexo?”, “Todos os possíveis! Ricardão é ótimo na cama!”, “Não, o sexo do bebê.”,  “Seu tarado!”, “Não, dona, quero dizer que você estava escrevendo um nome de menina. E se nascer menino?”, “Ah, se for menino, o pai escolhe o nome. Olha ele chegando aí!”. Não! Esta última versão do diálogo ainda terminaria em confusão. Até porque, garotas bonitas têm o mau gosto de namorar caras marombados, ou lutadores de jiu-jitsu. “Tô fora!”, pensou Toni.

     Toni estava tão distraído que não reparou quando sua amiga Flávia passava. Mas ela reparou que ele estava sentado, e se aproximou. “Oi, Toni!”, “Eh… Oi, Flávia!”, beijinhos, beijinhos, “Como você tá, menino?”, “Tô legal! Você também parece ótima!”, e por aí vai. Aqueles papos de “nunca mais mandou notícias”, “é, a vida anda uma loucura”, e outras banalidades completamente previsíveis. Flávia. Louríssima, gatíssima, linda, exuberante! Mas Toni mal conseguia tirar os olhos daquela outra moça, que brilhava à luz do sol. Aliás, ela parecia ainda estar escrevendo algo, mas Toni não conseguiu olhar, tentando não dar a perceber que já não escutava sua amiga. “Tchau, meu lindo! Vê se me liga, hein? A gente ainda tá se devendo conhecer aquela boate…”, “Ligo, sim!”, beijos a distância, um aceno. Toni, então, olha para o lado. Decepção.

     “Ellyda & Marquinhos”.

     Toni ficou de coração partido. Como podia? Ele nem a conhecia, e já estava se deixando abalar por uma notícia óbvia. Claro que uma mulher perfeita como aquela só podia ser comprometida! Mas, “Marquinhos”? Nem mesmo nome de homem ele tinha. Toni se sentia traído. Quis levantar, tomar as devidas satisfações, e quase o fez. Ela não tinha direito! Mas ele se conteve. Não suportando a dor, Toni resolveu voltar para casa. Foi chorar sozinho, pelo fim do que jamais começou.


     Era uma bela manhã de Sol. Ellyda acordou disposta, e seguia rumo à praia, que parecia lhe chamar. Com seu belo corpo negro, chamava a atenção de todos os homens por onde passava. A inveja das mulheres, também. Incomodada, levou sua cadeira de praia bem para frente, onde, ao sentar, não seria vista por mais ninguém.

     No entanto, um jovem rapaz a olhava diferente. Não a comia com os olhos, como o fazia a maioria dos homens. Ele parecia, mesmo, encantado. Isso a tocou sobremaneira. Mas, tímida, não teve coragem de iniciar um diálogo. Tomou em mãos um pequeno graveto, e pôs-se a escrever o seu nome na areia. Após as primeiras letras, o mar apagou. Poxa vida! Ela levantou-se, a contragosto. Não queria ser, novamente, alvo dos olhares. Gostava de se sentir bela, de usar um biquíni mínimo que destacasse as suas curvas, mas não se acostumava com os olhares.

     Pôs, então, a cadeira mais para trás, afastando-a do mar por mais alguns metros. Se tinha que fazê-lo, por que não aproximar um pouco da cadeira do rapaz? O álibi era perfeito, e ela o fez. Recomeçou a escrever seu nome, na esperança de que o jovem o lesse, e ele parecia mesmo interessado. Mas, aí, veio um ambulante desastrado. Ela quis explodir de raiva. Será que tinha de ser tão difícil, para uma moça, escrever um nome na areia?! Mas ela se conteve, afinal. Ela não queria que o rapaz pensasse que ela era esquentada. Após oferecer metade de suas mercadorias, a título de pedido de desculpas, e após ouvir sucessivas negativas, o ambulante saiu, olhando para trás, devorando-a com os olhos e pedindo desculpas.

     Ela reiniciou, escrevendo as primeiras letras de seu nome. Só para confirmar o interesse dele, deu uma olhada rápida para o lado, e ele desviou o olhar. Poxa! Ela não devia ter olhado. O negócio era torcer que ele não estivesse tão intimidado, e que lesse o nome dela. Não demorou tanto em escrever o resto do nome, mas caprichou na caligrafia. Queria impressionar.

     Mas, então, chegou uma garota. Ela era linda, loira, tinha o corpo perfeito. Era do jeito que homem gosta, cheia de carne, durinha, malhadinha. E era loira. Ellyda estava cansada de ver, por experiência própria, que os homens costumavam preferir as loiras. Ela não podia competir com uma mulher tão bela. Prontamente, decidiu escrever outro nome de homem, junto ao dela, para não dar na vista que estava paquerando o cara. Ela não suportava a idéia de que percebessem que ela foi rejeitada. Na falta de um nome melhor, escolheu o do seu irmão, de sete anos. Estava tão nervosa, que mal se deu conta de que escrevera no diminutivo. E com uma caligrafia sofrível.

     Quando a loira se despediu, o convidou para ir a uma boate, e ele garantiu que ligaria. Se eles não eram algo, logo seriam, certamente. E Ellyda teve certeza de que tinha tomado a decisão acertada, ao escrever aquele nome masculino ao lado do seu. Pena. Ele era exatamente como ela gostava. Bonito, mas nada escandaloso. Não era marombado, como aqueles caras que só pensam em academia e luta, e deixam a mulher em segundo plano. Ela gostava de rapazes assim, em forma, mas magrinhos, e com aquela cara de CDF. Costumam ser mais sensíveis, companheiros, apaixonados.

     Quando ele viu o nome escrito, ela não coube em si, de tanto espanto. A expressão dele caiu, desabou. O corpo dele perdeu o vigor. Ele pareceu realmente decepcionado. Por um instante, pareceu irritado. Mas, ficou nisso, mesmo. Logo, ele recolheu o pouco que levara à praia, e partiu. Ela se arrependeria, depois, por não te-lo chamado, nem puxado assunto. E se arrependeu. Fazer o quê?


Pablo de Araújo Gomes, 11 de março de 2010