quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feedback

Galera, só para situá-los: recebi um comentário no poema "Animal", e a resposta, além de um pouco extensa, ultrapassa o sentido do poema. Resolvi, então, postar aqui, como um texto novo, para quem se interessar.
Lá vai:





Caros Silvia e André,

Bem... Também vai ser difícil de responder. Vamos por partes, como diria tio Jack.
Gosto quando dizem que surpreendo. Se é verdade, um dos meus objetivos mais comuns é alcançado. Que bom, então!
Acredito que a vida é feita de muitas variáveis, talvez infinitas. Uma delas é a paixão. Sempre há paixão na minha vida. Por alguém, por uma idéia, pelo que houver. Há algum poema meu, o "Soneto de um Coração", que fala disso.
Pois é... entre pernas e bocas, há muito mais do que somos capazes de ver num primeiro olhar. E além de qualquer traço anatômico, está o que há de mais maravilhoso no ser humano: fica a seu cargo descobrir, pq varia e pessoa para pessoa!
Agora, a parte mais difícil. Eu escrevi, sim, que posso escrever, e até afirmar categoricamente, defender uma idéia com a qual não concorde. Se fosse mentira, e eu não achasse isso, eu estaria necessariamente contrariando a minha convicção, não? Costumo dizer que a melhor forma de me conhecer, hoje em dia, é ler o meu blog. Mas é preciso ler nas entrelinhas, às vezes. Sendo minha opinião ou não o que eu escrevo, sempre sai da minha mente, não? Mas grande parte do que eu digo realmente faz parte da minha opinião. Só não tem graça eu dar o ouro todo ao bandido assim. Desvendem-me!
70 personalidades?!?! Uau! Costuma ser difícil eu elaborar uma diferente da minha, e comemoro quando consigo. Espero que eu chegue lá. Mas, sim, considero-me um escritor. Não como um título: "Oh! Ele é um escritor!!!". É mais uma definição do que eu faço. Os falantes da língua inglesa tem uma frase que acho curiosa: "this is what I do", ou "that's what people do", e outras variações. Eu sou escritor, porque escrever é o que eu faço. Se faço bem ou mal, isso é outra estória. Faço o meu possível, dou de mim o melhor, e o resto é com o respeitável público, porque a arte só tem sentido se for mostrada. Tem algum texto meu dizendo isso, por aí...
Querem saber se podem confiar nos meus textos? Sim, confiem! Mas desconfiem...


Pablo de Araújo Gomes

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Não foi dessa vez

     Após muito esforço e sacrifícios consideráveis (e, talvez, um pouco de superestima dos efeitos desse esforço), a cara ao muro. Não foi dessa vez, é o que parece.

     Mas, "dessa vez"?
     Há espaço para outras vezes? A vida urge, e parece gritar tão alto que me apresse, que me doem os tímpanos. Esperança, persistência, boa vontade, tudo isso que fique para depois! O que eu queria, agora, é que tudo isso se explodisse, e só sobrasse o sucesso que tanto almejo.
     Não, não tenho problemas como fracasso. Não gosto, claro, como não conheço quem dele goste. Mas, afinal, não é o fracasso, por si só o que me incomoda. É que há coisas, em certas ocasiões, que, em hipótese alguma, admitem um fracasso tão retumbante!
     Não foi dessa vez, fica para a próxima.
     Foda-se, caralho! Ao inferno com a espera pela próxima chance! E fico procurando argumento para justificar uma esperança que nem mesmo sei se ainda tenho. E não é só pela derrota que sobre mim se abateu, mas pela certeza da vitória que eu tinha, com tanta segurança de estar no rumo certo, em cada uma das últimas batalhas. Não é só pelo fracasso que agora estou abatido, mas pela urgência de viver, porque a vida não está me esperando, o tempo não me está esperando, as necessidades, os deveres, responsabilidades, pressão, estratégias erradas por mim assumidas no passado, tudo, tudo o que faz com que eu esteja aqui, agora, neste estágio da minha vida, estagnado, preso, lacrado, dolorido, insone, louco para chorar um choro que se recusa a sair, solitário, sem um ombro próximo em que me possa fiar par aum bom desabafo, por isso e muito mais, não posso fracassar. Não posso mais depender de ninguém, não tenho mais idade, não me sinto confortável, mas, sobretudo, ninguém de quem eu possa depender está apto a me auxiliar.
     Sinto-me só. Inúmeros nomes me vêm à mente, pessoas legais, amigos verdadeiros, sinceros. Mas não quero consolo. Basta de ser consolado! Basta de estar conformado! Não me permito mais! Preciso de ação! Preciso andar, sair do chão, preciso viver, transcender, alcançar. Não me basta mais pensar que um dia eu chego lá. Chega das algemas da esperança no futuro!
     Andei tanto para frente, e não fui a lugar nenhum.
     Sempre ouvia dizerem que estava no caminho certo. Me recuso a aceitar que tenha me desviado tanto, a ponto de não poder  mais progredir. Para que lado, então, devo reajustar a jornada? Para onde devo seguir? Não! Talvez, tenha demorado demais para tomar as rédeas da besta que cavalgo, e, agora, enfim, não mais há rédeas que eu possa segurar. Talvez eu vague sem rumo, e há muito tempo. Talvez, a besta, ou melhor, o besta, seja eu mesmo.
     Quisera poder pôr fim a tudo, não para não mais lutar, mas para recomeçar do zero. Um reinício verdadeiro, não como meus últimos reinícios, repletos de cicatrizes. Na verdade, repletos de feridas abertas. Foram recomeços em que não comecei do começo, com certeza. Chega de dar meu sangue como o jogasse  ao mar! Já estou cercado de tubarões, mas me recuso a aceitar o game over. Eu fiz a aposta errada. Ou será que joguei mal? O negócio é que estou encurralado, o tempo está acabando, os tetos e as paredes estão se fechando, me imprensando, me esmagando, e nenhuma esperança parece ser grande o bastante que me faça sentir que é possível sonhar.
     Exagerado? Talvez. Mas é como eu me sinto, sem cortes ou censura.
     "Mas você é tão novo", muitos dirão, "ainda tem pela frente tanto chão!". Sim, muito chão. Mas estou cansado de ir carregado, muitas vezes por caminhos que não gostaria de seguir. Queria ir pelas minhas pernas, mesmo que sobre meus joelhos feridos de se arrastar no asfalto. E não. Não tão novo, apesar da idade. Sempre me apontaram como menino precoce, e eu até gostava disso, quando era novo. Hoje, carrego o fardo de ser tão novo e imaturo, sobretudo, para ser tão precocemente velho para minha idade. Não sou novo, só tenho pouco tempo de uso. Mas estou desgastado, não posso mais esperar. O fracasso não é uma opção.
     Engulo o choro, para ninguém mais possa ver. Isso dá câncer, dizem. Mas o meu câncer é o inexpurgável tempo, inseparável tempo, que me fustiga e mostra que não terei sempre o lar de meus pais, como um amortecedor para minha queda. No presente momento, já não dá conta de ser suporte para minha caminhada, menos ainda para minhas conquistas.
     Estou saturado. Não que a luta, o trabalho, ou os estudos, ou qualquer maneira de buscar meus sonhos seja algo negativo, ou cansativo por si. Faria-os a vida inteira, incansavelmente, se sentisse que não o fazia à toa. Não se pode vencer todas as batalhas, mas perder cada qual, seguidamente, sem uma tímida conquista para entremear as derrotas, parece-me como dar viagem perdida.
     Acredito que se deve caminhar com um objetivo em vista, mas não por ele, e sim pelo próprio prazer da caminhada. Se não, o que será do caminhante, quando alcançar o objetivo? Ou quando este se lhe fizer impossível? Perderá o sentido da vida, ao certo, pelo menos até que consiga traçar um novo objetivo. Mas, e se não houver, também, o prazer? E se o objetivo começa a embaçar quando a caminhada mais lhe desagrada?
     Pior, e quando tudo e todos, mesmo quando não têm intenção, ou quando não percebem, insistem em te lembrar, a todo tempo, de seu retumbante fracasso?
     E fracasso não é perder tudo. Fracasso é ver o tempo passar, e continuar a não ter nada a perder. Também não é uma vitória ter um piano de cauda e morar num barraco de papelão. O barraco é frágil. Se chover, adeus piano. Se você sair para lutar por uma casa melhor, há grandes chances de não encontrar o piano quando voltar. Mas, se não sair de junto do piano, se você sentir fome, ou se ele ficar desafinado, com que dinheiro comer, ou pagar para se lhe afinar?
     Em outras palavras, ainda não foi dessa vez.
     É por isso que eu queria aprender a andar, depender apenas das minhas pernas, a brigar com as minhas mãos, abrigar com o meu corpo, a suar com a minha pele. Sei que nenhum homem é uma ilha, que ninguém vive isolado ou sozinho. Mas sei que quem conta com os outros se descobre sozinho quando mais precisa.
     Afinal de contas, maldigo o destino, se é ele quem determina minha vida. Maldigo a minha fraqueza (a principal suspeita), se tudo é fruto de má gestão da minha vida. Mas, para conseguir, tenho que esquecer do passado e do presente, e tentar.
     Só o que ainda não sei é como conseguir tentar uma outra vez.

Pablo de Araújo Gomes, 21 de dezembro de 2009

domingo, 20 de dezembro de 2009

Virando a Casaca

     - Eu não beijo no primeiro encontro!
     - Mas, você acaba de me fazer um oral, e...
     - Desculpe, é um hábito antigo. É difícil de mudar...
     - Fazer sexo oral no primeiro encontro??
     - Não! Eu não beijo no primeiro encontro. Esse é o meu hábito antigo. Além do que, o que é sexo oral, hoje em dia? Todo mundo faz.
     - Todo mundo beija, também!
     - Eu, não. Por que tenho que ser igual a todo mundo?
     - Mas eu não disse...
     - Pssst! O que foi isso?
     - Isso o que?
     - Esse barulho.
     Ela se recompõe: fecha o decote, aberto até abaixo dos seios, devolve a minissaia ao seu lugar, bem abaixo de onde estava, voltando a quase esconder a calcinha preta. Ele, desconfiado, fecha o zíper e segue em seu encalço, rumo à saída do beco. E tenta tranquilizá-la.
     - Não é nada!
     Atônito, ele assiste ao inesperado. Ela sai correndo para longe, rápida como um raio, e se perde na escuridão. Ele olha em volta, temendo um ataque sabe-lá-de-quê. Nada lhe ocorre, nada o surpreende. Para onde ela foi? Ele não sabe. Nem quer saber. Ela é linda, pensou. Mas não era muito hábil nas carícias. Sim, "carícias", aqui, é um eufemismo para boquete. Pronto, falei. Satisfeito? Satisfeita? Deixe-me retornar à estória, sim?
     Ele resolveu voltar à boate. Não. Não havia dado certo. Iria a algum bar.
     Para sua surpresa, algo metálico, ou pelo menos bastante gelado, toca-lhe a nuca. Uma arma, é lógico, pelo som que ela fazia. Era algo assim:
     - Bora, cara, passa o celular, a carteira, passa a grana, passa tudo!
     - Tudo bem, tudo bem. Calma, cara, eu vou dar tudo o que tenho aqu... peraí! - põe as mãos nos bolsos, e nada de celular. Nada de carteira, também. - Aquela pilantra!
     - Bora, passa pra cá, legal! - E enfia a mão nos bolsos do jovem rapaz.
     - Ela levou minha carteira. E meu celular, também.
     - Não olha pra mim! Ela o quê?
     - É sério, pode revistar! Aquela filha da puta!
     - Ha, ha! Então, você caiu, mesmo, no velho truque do boquete no beco escuro?
     - Velho?
     - Tá bom, tu é mesmo um bestão. Vem cá, que eu te pago uma bebida!
     - Você o quê?
     - Vem, tô falando sério. Essa história eu quero ouvir!
     Nosso amigo olhou para aquele homem, negro, alto, forte, segurando uma barra de ferro. Um pedaço serrado de encanamento metálico, para ser mais preciso. Vendo o seu olhar, o homem-armário respondeu prontamente.
     - Fazer o quê? A gente tem que comer, levar a vida, antes que a morte leve a gente.
     No bar, o negão (ou o afro-descendente, se você prefere algo mais politicamente correto) pediu uma cerveja. Contou que costumava ser estivador, mas agora as máquinas faziam todo o seu trabalho, sem cobrar tanto em troca. Ele ficara sem renda, mas não tinha coragem de machucar uma mosca. Aí, lhe veio a idéia de tentar uns assaltos, com o pedaço de cano, para ver se colava. Mas não era a sua praia, não.
     - Mas eu não tô aqui pra falar de mim, não. Conta a tua história! - E o jovem rapaz contou, tintim por tintim. - Mas, pelo menos, ela era boa, né?
     - Boa, boa toda! Estava com uma sainha bem curtinha, de jeans, dava para ver a calcinha provocante, preta... blusinha pequena, mostrando a barriguinha... um pecado!
     - Quer dizer que o produto é de qualidade... Mas eu tô falando do serviço. Se ela era boa no... você sabe...
     - Ah, o bola gato? Nada! Nem compensou o que levou...
     - Sério? Pois, tá começando a parecer familiar.
     Por uma razão misteriosa, inexplicável, ela entra no bar. Sim, ela mesma. Totalmente recomposta: batom retocado, cabelos penteados, segue em direção do negão, sem reparar no jovem, de costas e agora sem sua jaqueta. Quando ela dá uma bitoca no negão, o rapaz se dá conta de que é ela mesma.
     - Demorei, amor?
     - Um pouco. Fez hora extra de novo, meu amor?
     - É... a patroa recebeu aqueles amigos estranhos podres de ricos, de novo.
     - Deixa eu apresentar o meu amigo.
     Ao vê-lo, ela ficou estatelada. Mas não disse nada. Ele, tampouco, arriscou abrir a boca. Aliás, estava aberta, mas caída, muda, silenciosa, a sua boca. Ele temia pela reação do armário humano, quando soubesse das "carícias" que recebera da sua namorada.
     - Você é novo por aqui? - ela perguntou.
     - Estou de passagem.
     - Ele caiu no velho truque do boquete, amor. Dá pra acreditar?
     - E ainda tem quem caia neste truque, benzinho?
     - Pelo jeito... Talvez você saiba mais do que eu...
     Ele sabia. É claro que sabia! E não parecia aprovar muito.
     - Gente, eu acho melhor eu ir embora. Curtam a noite, e...
     - Peraê, toma tua cerveja. Já pedi, considere paga, não vou perder o dinheiro, não!
     O jovem olhou para a garota. Seu namorado questionou seu silêncio.
     - Você está tão quieta, hoje, meu amor... Não tem nada para me contar, não?
     O rapaz estremeceu.
     - Só estou cansada, benzinho. O dia foi difícil.
     O rapaz olhou para a cínica. Onde estariam suas coisas, agora?
     - Benzinho, vamos embora?
     - Tá bem. Pede a conta, que eu pago quando eu voltar do banheiro.
     - Eu pago! - ela respondeu prontamente.
     O jovem começou a ficar irritado. Era muita cara de pau. Ela ia pagar sua cerveja com o dinheiro que lhe tinha roubado. O negão armário foi ao banheiro.
     - Cadê meu dinheiro?
     - Vai pagar a sua cerveja.
     - Eu tinha muito mais.
     - Ops... não sei onde está...
     - Vamos, passa o meu celular, agora!
     - O seu o quê?
     - PASSA O CELULAR E A CARTEIRA!
     Neste instante, todos dentro do bar olharam para ele. Voaram celulares de todos os lados, em sua direção. E carteiras, também. Ela lhe entregou as suas chaves, que levara  por acidente. Ele, surpreso, não sabia o que fazer. Ouviu, ao longe, uma voz falar, sussurrando:
     - Alô, é da polícia?
     Olhou em volta, todos assustados.
     - Não, eu só queria o meu, que ela roubou! - claro que ninguém acreditou que aquela doce moça poderia tê-lo roubado - Vocês sabem, o truque do boquete...
     Uma senhora tapou os ouvidos de um garoto, a única criança do ambiente. Todos olharam para ele com ar de reprovação. Um único rapaz parecia acreditar nele.
     - É verdade! Eu sabia que te conhecia, sua safada!
     Mas, apenas a esposa deste rapaz ouviu o comentário, o que lhe renderia um bom divórcio. As pessoas já haviam se amotinado contra o seu aparente algoz, seu assaltante. Ele pegou o que pôde, uns seis celulares e uma porção de carteiras, e saiu correndo. Ao longe, já se ouvia do bar o som de uma sirene, mas ele já entrava, finalmente, no carro.
     Saiu da cidade, pensando. Não tinha mais seu celular, mas tinha um idêntico. Ia recuperar o número e... Justo o telefone semelhante ao seu tocou. Era o negão.
     - Com o quê eu vou pagar a conta, agora, palhaço? Ela te devolveu tudo!
     Ele não entendeu. Ou não sabia o que entender. De vítima, virou assaltante. Não sabia porque havia levado todas aquelas coisas, mas pegou o dinheiro das carteiras e as jogou todas na rodovia. Os aparelhos celulares também ficaram no caminho. Perdeu um bom emprego, na certa, mas não voltaria mais àquela cidade de malucos.
     Seis meses depois, ainda recebia mensagens apaixonadas da moça. Ela queria lhe dar um beijo, ao menos. Ele apenas respondeu que seu boquete era muito, mas muito ruim, mas ela prometeu melhorar. E jurou que ainda se casaria com ele.

Pablo de Araújo Gomes, 20 de dezembro de 2009

sábado, 19 de dezembro de 2009

Sem Amarras

     Os insensíveis que me perdoem, mas arte é fundamental.
     Aliás, também hão de me perdoar os pseudossensíveis, aqueles que tentam impor amarras à arte, dizendo "arte tem que ser assim", "arte tem que ser assado"... Arte é expressão, Arte é natural. E reflete um momento histórico ou status social de quem a faz, mesmo que não queira. Eu, pessoalmente, não gosto do que chamam hoje de Funk, só para ficar num exemplo. Na verdade, como em nada se parece com o funk histórico, poderíamos abrasileirar, também, o nome: chamemo-no de fanque. Não gosto dele, de fato, mas não posso negar seu caráter artístico. Mas, assim como a Bossa Nova refletia a busca por uma suavidade e sofisticação essencialmente brasileira, baseando-se no samba, por parte de uma elite intelectual em pleno borbulhar cultural, o fanque reflete a podridão cultural de uma camada excluída dos benefícios a que deveria ter manifesto direito, entre eles, a própria educação. O que esperaria deles? Havia um tempo em que existiram Adonirans Barbosas, Pixinguinhas, Noéis Rosas, eu sei, no morro, na vila, na favela, mesmo quando havia altos índices de analfabetismo. É verdade, eu não nego, mas chegamos aonde chegamos por um processo longo, que foi catalizado pela total ausência do estado justo no primeiro momento posterior à revolução sexual.
     Calma, não se alarme pelas minhas comparações. Na verdade, sequer houve uma comparação, houve paralelos. E também não estou aqui para defender ou criticar o fanque (ou o funk). Isto fica para a próxima, quem sabe?
     Mas, por que há quem diga que um poema, para assim sê-lo, tem de ter rimas, métrica, ou qualquer outra característica? Ou, por que há de ter de haver arte pela arte? É uma ilusão, tenho dito. E acho até muito interessante e louvável que se use do poder da arte para defender uma causa. Brecht foi apenas um (um dos melhores, claro, mas apenas um) dos muitos que ostentaram uma ideologia através da maestria em sua arte. Mas a arte não se limita a isso! Você não tem nem que concordar com o que diz a sua obra. Arte é criação, Arte é liberdade! Não se iluda com o que digo, ou com o que dizem os artistas em suas obras. Arte é questionamento, Arte é provocação! Você deve, mesmo, meditar a respeito. Não aceite, nem rejeite de cara;  depois de pensado, no entanto, tome um partido que lhe pareça certo, não fique sobre o muro. Mesmo, aliás, que, posteriormente, mude de opinião. Talvez seja uma boa razão, até, para evitar radicalismos, não por insegurança, mas por saber que a verdade é um mistério, e nós temos visão limitada. Quem sabe se, afinal de contas, estamos certos ou errados, num embate? Às vezes, há tanta certeza, e tantos morrem por este engano.
     Mas, também não vim falar de tomar decisões. Estou para lembrá-los, todos, de que a arte não pode ter amarras. Aliás, serei agora contraditório. Na arte é preciso bom-senso. Se você propaga idéias com as quais não concorda, esteja seguro de que aquilo não será nocivo a alguém, ou de que, se a idéia for ofensiva a alguém, você é plenamente responsável pelo que veicula. Esta é uma amarra terrível. Mas não é o fim do mundo, se você tem bom-senso. Ou é bom senso, mesmo? Ai, ai, esta reforma ortográfica nos confunde até no que não foi mexido... Mas, o que eu falava, mesmo?
     Pois, sim. Eu dizia que a arte não tem que ter amarras externas. Você não tem que se enquadrar numa escola. Nisso, viva a modernidade e a globalização! Só assim, temos contato com tantas formas e opções, para aprendermos que não é necessário se enquadrar tanto para ser aceito. Hoje, há fãs incondicionais de Machado de Assis, como há os de Álvares de Azevedo; admiradores e leitores incansáveis de Harry Potter  (J. K. Rowling) e companhia, como há os encantados leitores de Iracema. Cada um tem seu nincho no mercado. Ninguém começa a ler por Eça de Queirós, ou com Iracema. Ninguém começa com o genial Navio Negreiro, de Castro Alves. E, a menos que tenha crescido ouvindo, ninguém diferencia um Mozart de um Vivaldi, ou de um Bach (tão distintos), se não houver curtido e, talvez, até, estudado. Às vezes, para despertar este interesse, é preciso recorrer ao cancioneiro popular, ou outras músicas infantis, por exemplo, como muito bem compreendeu o nosso gênio musical, cem por cento brasileiro, Heitor Villa Lobos.
     Claro que, quem nasce e cresce ouvindo fanque tem muito menos chances de ouvir Vila Lobos, um dia, e gostar. E, provavelmente, não vai se interessar em diferenciar Bach de Mozart, benza-lhes Deus! Mas haverá quem ouça, enquanto houver o nicho cultural em que se enquadram. A mim, me ferem o ouvido e a paciência, e não suporto ficar com suas músicas (sim, se admito que é arte, tenho que enquadrá-los de algum jeito; que seja como música, então) emaranhadas em minha cabeça, por dias a fio, louco para estourar cada caixa de som que lhes reproduz.
     Acho que não vou escrever mais a crônica sobre o fanque. Acabo de escrever uma dentro dessa. Mas, de fato, Raul Seixas não acreditava que havia nascido há dez mil anos atrás, e alguns malucos acreditaram. Isso o encorajou a mandar todos tentarem outra vez, e isso salvou muitas vidas. Mas, se ele quisesse, poderia ter dito qualquer coisa, como também falou de discos voadores que não via, e confessou esconder garrafas de bebida enrustidas na Bíblia. Grande Raulzito, sabia do que eu tô falando. Plunct, Plact, Zum, o segredo do universo... Sério? Brincadeira? Não importa. Arte!


Pablo de Araújo Gomes, 19 de Dezembro de 2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Meu novo hobby

     O Frodo Bolseiro que se dane! Meu novo hobby é a jardinagem. O quê? O Frodo é um Hobbit? Mas isso não vem ao caso, não nos prendamos a pequenos detalhes.
     Mas, eu dizia, meu novo hobby é maravilhoso! Não há nada como se concentrar num trabalho manual, e somente ter que pensar no que está fazendo, por alguns instantes.  E a jardinagem, sem que você deixe de pensar nela, ensina uma porção de coisas.
     Aprendi, por exemplo, que os nossos arbustos preferidos são como as nossas amizades. Nós precisamos alimentá-los, cuidar com carinho, dar água, luz, e às vezes até sombra. Tudo para que possam crescer e ficar belos como desejamos. Vi que um jardim é como a nossa vida, pois o cuidado deve ser constante, nunca acaba. E negligenciar deixa tudo feio e com cara de desleixo, como nós ficamos se não cuidamos de nós mesmos com constância, seja na aparência, seja nos estudos, seja nos negócios.
     Aprendi que cuidar das plantas é como viver, e como amar. Todos falam que quem planta o bem colhe o bem; todos dizem, também, que quem planta o mal colhe o mal. O que esquecem de nos ensinar é que é preciso paciência, e que não adianta plantar o bem hoje, se você não cuida que ele seja um bem permanente. No jardim, é assim. Se você planta hoje, demora a nascer, e se você não tiver paciência para esperar e cuidar, não brota mais. É como recuperar a confiança de quem se decepciona conosco.
     No jardim, como no mundo dos negócios, precisamos podar, aparar as arestas, também para embelezar, mas, principalmente, para otimizar o crescimento da planta. Ou você pensa que é só chegar com tesoura na mão e sair cortando tudo? Não. É preciso, sobretudo quando a planta ainda é nova, apenas direcionar o crescimento, e deixar para embelezá-la apenas quando já estiver maior, mais volumosa e mais robusta. Já pensou que negócio é capaz de crescer e pular etapas, cheio de investimentos, mas se endividando? Ou, no necessário corte de gastos, o que aconteceria se fosse cortado o gasto que, na verdade, é um investimento? Se você cortar corretamente a raiz, controla o crescimento, e cria um bonsai. Se corta demais, ele não somente para de crescer, mas morre. Não corte o caule. A grande chance é de perder a planta para sempre. Se quer que cresça em outra direção, corte aquelas pontinhas, de onde brotam ou por onde crescem os galhos. É preciso, mais uma vez, calma, paciência precisão, e por vezes, planejamento, para fazê-los crescer.
     Pretendo aprender, no futuro, a lidar com as delicadas flores. Creio que poderei entender o amor. Vejo nas flores a delicadeza e a fecundidade que se pode atribuir ao verdadeiro amor. E no cuidado que lhes devemos dispensar, enxergo aquele que se deve dar à pessoa amada.
     Mas há muito mais na jardinagem. No momento, para mim, tem tido a vantagem de não me acrescentar quase nenhum custo, o que se diferencia de quase tudo o que desejo fazer. E me permite estar próximo à minha filha, quando ela está brincando e se divertindo no jardim. Gosto que ela cresça cercada de verde. Faz bem para o corpo e para a alma. De quando em quando ela já se interessa por me ajudar, mas espero que tenha mais idade para compartilharmos este prazer. Seria soberbo fazê-lo!
     De resto, há benefícios que me parecem inexprimíveis. Se você precisa relaxar e aprender muito sobre a vida, eu recomendo que ache um espaço de seu tempo para um jardim. Pode ser o seu, ou você pode adotar alguma pequena pracinha, em parceria com a prefeitura. Ou ter uns dois ou três vasos, desde que dedique a eles não menos que meia hora, todos os dias. Garanto que será bastante gratificante. Muito do que digo, e mais ainda do que não digo, você só vai entender quando experimentar, continuamente, por um bom tempo.
     Agora dêem-me licença, pois a grama já está um pouco alta.


Pablo de Araújo Gomes, domingo, 8 de novembro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Conservador

O ser humano é incrível. É impressionante a capacidade que ele tem de ser conservador.
Certo dia, aprendemos algo, muito provavelmente um ensinamento que já traz implícito um ponto de vista, uma ótica. E sobre isto aprendemos daquele modo, e o tomamos como verdade. E pronto. Mas a vida é muito dinâmica, e aquele mesmo ensinamento é ensinado a uma outra pessoa, no entanto, com outra ótica. Esta outra pessoa o toma como verdade. E pronto. Até aí, nada de mais. A diversidade de opiniões enriquece o debate e amplia a capacidade de raciocínio.
Só que, eu dizia, o ser humano é incrivelmente conservador. E o encontro entre estas duas pessoas, cada uma com a sua bagagem, não vira um rico debate, mas uma disputa pelo título de real dententor da propriedade da mais absoluta verdade. Ninguém abre mão do que crê ser verdade, ninguém aceita a possibilidade de o que julga saber ser tão verdade quanto a verdade dos outros, muito menos que seja menos verdade.
É isso que gera alguns preconceitos, por exemplo. Em muitos dos países que se alinharam ao lado capitalista, na chamada Guerra Fria, ser comunista é algo como ser leproso, mas sem hospital especializado. No próprio país que encabeçou esta face do conflito ideológico, os Estados Unidos, a forma mais eficiente de se abaixar a popularidade de um político é acusá-lo de realizar gestos socialistas ou socializantes. Ainda é pior do que ser associado ao terrorismo, o grande vilão dos EUA nos últimos tempos. E olha que a guerra fria acabou no século passado!
Eu também não estou livre do conservadorismo. Nem sequer gostaria de estar, pois há coisas que devem ser conservadas pelo máximo de tempo possível. Não como os obsessivos personagens de Huxley, ou o papa Bento XVI, com a ilusão da total estabilidade e da verdade eterna e imutável. Mas não posso deixar de encontrar resistências a algumas mudanças. Quem quer trocar a segurança do que já é certo pela incerteza de algo que pode ou não obter um sucesso futuro? Resisto, assim, a determinadas mudanças em minha vida pessoal, a específicas mudanças na carreira acadêmica ou profissional, ou a mudanças na ortografia oficial. Pôxa, eu sempre fui bom em ortografia, e agora tenho que reaprender uma tuia de coisas!
Mas, ao pensar novamente, e com mais calma e serenidade, somos obrigados a admitir que os chineses estão certos há milênios, desde muito antes do que sonhamos. Não é novo para eles o conceito de que tudo muda o tempo todo. Não é que Parmênedes estivesse errado (e em meu ponto de vista, estava certíssimo), mas que Heráclito de Éfeso acertou em cheio! Acho, até, que ele devia ter em algum lugar um amuleto do Yin Yang consigo para onde ia. De fato, o equilíbrio é apenas um breve (infinitesimal) estágio entre um e outro desequilíbrio. Você pode retardar a mudança, nunca impedi-la. Tudo passa, e essa sensação de finitude, de que a humanidade, e, pior, a sua vida vai acabar tira qualquer um do sério.
Por outro lado, não temos que ficar como loucos, viciados, como canso de ver, em novidades. Outro dia, ouvi que o mal dos conservadores não é ser conservadores, mas não saberem o que conservar. Eu queria descobrir o autor desta frase magnífica, e, quem sabe, de algum modo cumprimentá-lo (ainda que no post mortem) por tamanha genialidade. É uma verdade interessante. Um exemplo: o fim do trema, aqueles pontinhos que fazem um "u" parecer dois "i"s, vai legitimar quem já falava "qüestão" ou "trankilo", quando não são estas as reais fonéticas. E os malucos excessivamente liberais já pregam o fim do nosso querido e insubstituível ponto-e-vírgula. Já o fim ou introdução do hífem entre determinadas palavras, com todo o respeito, nem cheira nem fede, serve apenas para unificar a língua portuguesa entre os países lusófonos.
Então, afinal de contas, somos conservadores, mas nem sempre. Nosso erro, talvez, é não querer conservar o amor, determinados valores morais (como a honestidade, o respeito et coetera), a natureza (a conservação desta é tema para longas crônicas, porque é relativa), por exemplo, enquanto se quer conservar preconceitos, valores morais negativos (como a inveja e a xenofobia et coetera) e um sem fim de coisas inúteis e até prejudiciais.
É incrível a capacidade humana de fazer de seu conservadorismo um veneno sem antídoto.


Pablo de Araújo Gomes, 20 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Miserável

É incrível a capacidade humana de ser miserável! Não me refiro à miserabilidade de pobreza. Esta é a condição intrínseca que nasce conosco: nascemos pobres, mesmo que em berço de ouro, e eventualmente não vivemos na pobreza; a prova é que é muito fácil te tirar tudo que tens, num estalar de dedos, pois nada te pertence... Mas lá vou eu, como sempre, em delongas! Eu dizia que o homem (gênero humano, sim?) pode ser muito miserável, no sentido de ser cruel e desprezível. Ah, isso, sim...
Aliás, repare como conseguimos personificar a própria Lei de Murphy: se você puder ser mau a um desafeto, mau você será, e da pior maneira possível! Estou mentindo? Não creio. Deixe idéias hipócritas para fora deste debate, assuma o seu verdadeiro eu, pois ninguém está lendo seus pensamentos!
Há infindáveis exemplos capazes de comprovar o alto grau de miserabilidade humana! Eu, mesmo, quantas vezes submeti formigas de espécies diferentes a outros formigueiros (principalmente se fosse um formigueiro de formigas-de-ferro), somente para comprovar, mais uma vez, com rigor científico que ela seria capturada e morta pelas sentinelas da colônia?
Aliás, esta pequena crueldade ainda tinha um fim científico. Tenho pena dos pintinhos da ingênua vizinha de meu pai (séculos atrás, quando ele era um moleque muito criativo, lá pelos seis anos). Ingênua, porque atribuía o desaparecimento dos filhotes de sua galinha à ação de uma suposta raposa, cobra ou outro animal dado à rapina. Era o sacana do meu pai que, para incrementar o pequeno "cemitério de pintos" que "administrava", matava mais um. Ainda bem que pintos, aqui, não se trata de um eufemismo! Valei-me!
De fato, estes dois últimos exemplos podem sugerir que o problema seja de família. Eu percebi. Para me redimir, sugiro que observem as conversas de banheiro das moçoilas, que para lá não vão desacompanhadas: "Você viu o vestido da Joana, que coisa R-I-D-Í-C-U-L-A?!?!", ou "Meu Deus, Mário não se enxerga, mesmo!! Você viu ele dando em cima de mim?". Não menos cruéis que as mulheres (cujos piores pensamentos não tive coragem de revelar, se é que os piores que eu conheço são realmente os piores), há também inúmeros ditadores na história da humanidade: quem não ouviu falar em Gengis Khan, crudelíssimo imperador mongol que assombrou o império Chinês e outros mais? Ou Hitler, que parece, certamente, com a sogra de alguém que você conhece? Ou, pior, Stálin, que conseguiu ser mais cruel que Hitler, talvez quase tanto quanto aquela ex-namorada de um amigo seu... Enfim... nada contra as garotas. Por favor, não se ofendam... Eu só queria mostrar que não estou sozinho com meus parentes neste negócio miserável. E é só.
É melhor eu parar por aqui. Acho que me fiz entender, e quanto mais eu falo (escrevo), mais me comprometo. Até a próxima, se eu for capaz de sobreviver à miserabilidade humana!

Pablo de Araújo Gomes, 2 de Outubro de 2009

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Solitário

É incrível como um homem (gênero humano, claro!) pode ser solitário! Ando pensando, e, pensando, às vezes, não me sinto bem em concluir que é hoje o meu maior problema. Não que me falte pessoas, ou que os que me circundam não sejam amorosos. Pelo contrário, muito pelo contrário, mesmo!
Este sentir-se assim me faz lembrar de um texto que, certa feita, li. Falava da superficialidade das relações humanas no mundo contemporâneo. Mesmo com meus familiares, (quase) sempre abertos e atenciosos, me vi obrigado, dia a dia, a criar uma relação um tanto quanto superficial. E isso fica evidente na medida em que mais precisamos uns dos outros, porque é quando mais nos afastamos.
E amigos? Não teria eu amigos? Tenho, sim, claro! Bons amigos, de longa data, que não mais vejo há algum tempo. Não esqueço de nenhum. Sabem (creio) que podem contar comigo sempre, e creio de fato poder contar sempre com eles. Outros colegas, novos amigos, cuja amizade está em plena construção, mas ainda é bastante superficial.
O problema, na verdade, é que, no dia a dia, termino falando demais o que não devo a quem não seria tão conveniente. Disperso minhas energias à toa, e minha vida se torna muito pública, diante de tanta gente que sequer consigo cumprimentar a todos. E até gosto de ter tantas pessoas a quem possa cumprimentar, disso não me queixo. Sinto falta é que alguma amizade se aprofunde. E nem tenho certeza se não sou exatamente eu que venho a repelir este aprofundamento da amizade...
E, aí, retomamos ao problema inicial. Cercado de pessoas que me parecem ótimas, desejoso de me tornar bom amigo, consigo ser tão solitário. Ou, melhor, não consigo deixar de sê-lo! Sentir-me só, e baixa a minha auto-estima não tem sido raro. Tem-me, vez ou outra, me custado caro, na verdade.
A carência é tal que os pesadelos passaram a ser a pura e simples solidão. Meus sonhos mais estimados têm sido rever velhos amigos. Eventualmente, namorar em sonho tem tido efeito semelhante, quase sempre com alguma garota desconhecida, que nunca vi na vida...

É incrível como um homem pode ser solitário!!!

Pablo de Araújo Gomes, 29 de Setembro de 2009

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Arte Conceitual Made in Platão

Olá, pessoal!
O que nos trago, hoje, é um trecho do Livro "A República", de Platão. Trata-se de uma "fábula", uma "mentirinha" que Sócrates cria para, pelo bem da cidade imaginária (A República, criada imaginariamente com o fito de definir a justiça e provar ser ela a melhor maneira de se viver), alimentar o espírito dos guardiães da tal República. O propósito que me leva a publicar este trecho não é que criem algo à imagem e semelhança do que fez nosso amigo Platão (sacaram a intimidade?).
Antes disso, este texto poderá trazer uma nova ótica aos que gostam de escrever sobre fantasias, como os admiradores de Nárnia, O Senhor dos Anéis, ou demais terras e criaturas que povoam o imaginário, assim como os RPGs da vida. Vamos beber, então, nas antigas e sempre boas fontes da mitologia grega:

"(...) na realidade, eram então formados, todos, no seio da terra, eles, as suas armas, suas ferramentas e tudo que lhes pertence; (...) a terra, sua mãe, lhes deu à luz; (...) Na cidade sois todos irmãos, (...) mas o deus que vos formou misturou ouro na composição daqueles de entre vós que são capazes de comandar: por isso são os mais preciosos. Misturou prata na composição dos auxiliares; ferro e bronze na dos lavradores e na dos outros artesãos. Em geral, procriareis filhos semelhantes a vós; mas, visto que sois todos parentes, pode suceder que do outro nasça um rebento de prata, da prata um rebento de ouro e que as mesmas transmutações se produzam entre os outros metais. Por isso, acima de tudo e principalmente, o deus ordena aos magistrados que zelem atentamente pelas crianças, que atentem no metal que se encontra misturado à sua alma e, se nos seus próprios filhos houver mistura de bronze ou ferro, que sejam impiedosos para com eles e lhes reservem o tipo de honra devida à sua natureza, relegando-os para a classe dos artesãos e lavradores; mas, se destes últimos nascer uma criança cuja alma contenha ouro ou prata, o deus quer que seja honrada, elevando-a à categoria de guarda ou à de auxiliar, porque um oráculo afirma que a cidade perecerá quando for guardada pelo ferro ou o bronze".


À minha mente, pelo menos, vieram alguns enredos bem diferentes, inclusive em "universos" diferentes entre si. Não sei qual(is) dos enredos eu vou desenvolver, mas vou trabalhar nestas idéias. Por achar um bom fertilizante mental, resolvi não perder a oportunidade e trazer para todos. Made in Platão, para vocês. Bons textos!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Ne me quitte pas e Inspiração

     Tive, esta semana, um contato imediato de primeiro grau com a Música "NE ME QUITTE PAS", de Jacques Brel. Música com letra maiúscula, sim, no meio da frase, e porque acho que é pouco, quase escrevi todo o nome em caixa alta. Poesia com "P" maiúsculo, sem dúvida alguma! Fiquei surpreso e impressionado! Mas qual a razão de minha surpresa? De tanto que se ouve dizer que é bela esta canção, chega-se à conclusão de que é um modismo, ou senso-comum dizê-lo. E muitos o fazem sem fazer idéia do que ela diz. Sim, é de uma melodia extraordinária, em sua simplicidade, mas ele reservou o que havia de melhor para a letra. E, por isso, impressionado.
     E de tão simples, de tão bela, de tão ritmada que é esta obra-prima, caí novamente diante de um velho princípio, dogma ou sei-lá-o-quê sobre a alma do artista. Refiro-me ao fato de que a maior fonte de inspiração sempre foi o sofrimento. Os mais belos poemas, canções, espetáculos teatrais são e foram, em geral, forjados num momento de intensa dor. Não é que outras fontes não existam, mas a capacidade de criar gerada pelo sofrimento é tal que, muitos, quando não estão sofrendo, forjam um sofrimento, para alimentar a própria alma.
     Não creio que tenha sido uma necessidade para Jacques Brel, quando da criação desta sua obra-prima (ele tem outras belas músicas, como esta, mas nenhuma tanto quanto esta). Parece-me, segundo pude ler em mais de uma fonte, que ele estava vivendo uma sofrida separação, e não queria se separar. Se ele foi cavalheiro ou se foi xarope, não sei. Mas que ele escreveu um dos mais belos poemas, que ele compôs uma das mais belas canções, nem Suzanne Gabrielle poderá, jamais, negar. E ela talvez tenha, até, algum orgulho de tê-lo feito sofrer. Pode? É claro que pode!


Pablo de Araújo Gomes, 25 de junho de 2009



Confira você mesmo o que lhe digo:


p.s. O YouTube não está permitindo a incorporação deste vídeo a sites ou blogs. No entanto, se o quiser ver no youtube basta clicar aqui.

Arte Conceitual? Conceito e Primeiras Propostas


Primeiramente, como esta é a primeira postagem deste gênero, permita-me explicar. Arte Conceitual é um modo de pensar a arte dando mais valor e importância à idéia que inspira a obra do que à obra em si. Os títulos neste blog que vêm com esta "etiqueta" de "Arte Conceitual" são idéias para produção literária, para quem por elas se interessar. As idéias poderão ser apresentadas através de temas, imagens, títulos, situações, enredos, ou qualquer meio que estimule e possibilite a criação de um texto. E o estilo, o formato e a estrutura são livres: vale verso, vale prosa; vale poesia concretista, prosa ritmada; vale quadrinhos, vale dramaturgia; vale crônica, conto, romance ou novela; vale drama, vale comédia, vale investigação ou suspense... vale o modo que você quiser fazer, explorar ou experimentar.

A produção decorrente destas sugestões fica livre para publicação ou não, onde o autor quiser publicá-la. A idéia de que alguém pode aproveitar uma das idéias apresentadas por aqui, já me felicita. Mais feliz ainda ficarei se pudermos realizar um intercâmbio literário, e se, por favor, mostrarem-me a obra que partiu destes temas. Mais adiante, podemos até formar uma comunidade literária. Sonhar não custa!

Dito isto, vamos a nossas primeiras propostas:

- O difícil caso de amor entre (fulano/fulana) e seu andróide.
- Insetos em grande quantidade e/ou concentração: sinal de manifestação demoníaca.

Abraços, colegas!
Aguardo contatos!

Sábado à Noite (ou A Longa Saga do Buraco Assassino Numa Rodovia Estadual na Paraíba)

          Cara, acho que isso não é uma crônica. Talvez nem mesmo seja literatura. Eu o definiria sendo algo como um muito-longo-e-pirado-depoimento-de-gosto-duvidoso-sobre-uma-aventura-acontecida-no-último-sábado-à-noite, resumindo. Lá vai:
          Certamente, você já ouviu aquela música (ao que me parece, composta por Lulu Santos), que fez um baita sucesso anos atrás, na voz de Toni Garrido e sua Cidade Negra. Sim, refiro-me à música "Sábado à Noite", título comum ao desta humilde crônica que ouso escrever. É até bem verdade quando ela diz que "todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite", mas a verdade é que ninguém esperaria o que aconteceu na noite do meu último sábado (melhor dizendo, espero que não o último da minha vida, mas até o presente momento).
          Comecemos um pouco antes do acontecido. Na sexta-feira, ficamos sabendo de certo evento, uma festa numa fazenda, no sábado, a que fomos convidados. Caaporã, PB, divisa com PE, não é de todo longe de Recife. Em boa e clara verdade, é logo ali. Não à toa, o que mais se encontra no verão de Pitimbu (o município seguinte, indo ao norte) são os recifences. O que isso tem a ver? Leia, e verá.
 Falava-lhe do convite, não? Pois sim, que seja. Ainda que dado o tiro à queima-roupa, planejamos ir à festa em tal fazenda no sábado à noite, e depois passar lá o domingo, para uma feijoada e para ver o jogo da sofrível seleção de Dunga. E fomos que fomos.
          A festa, à noite, foi muito boa. Bem, eu não sei bem, porque estava tomando conta da minha filha, e não deu para curtir muito. Mas minha filha adorou! Por isso, o objetivo de minha ida já estava satisfeito. E toda a minha família também gostou muito, o que significa que não foi nada má a festa. Ótimo! Até aqui, uma história ordinária, não? Pois, então, vamos dormir. Alguém teve a infeliz idéia de pernoitar em nossa casa em Praia Azul (distrito de Pitimbu, PB - não disse que a informação seria importante?), ao desconfiar que nos faltariam leitos na própria fazenda. Assim fizemos.
          Logo após a saída da fazenda, tendo atravessado a zona urbana da pequena Caaporã numa rodovia estadual, nos deparamos com um buraco assassino. Sim, um buraco assassino. O sopapo que o carro levou foi grande, assustando toda tripulação e passageiros (meu pai dirigindo, minha mãe exercendo o papel de co-piloto sonolento, e eu e minha filhota brincando no banco de trás). Numa fração de segundos, passamos por um carro encostado à nossa direita, e jovens fazendo algum tipo de sinal para nós, que não entendemos.
          Tudo bem, não entendemos até passar mais um segundo ou dois, quando tivemos também que encostar à direita. O tal buraco assassino nos havia condenado à morte nossos dois pneus esquerdos. Sim, os dois, o da frente e o de trás. Os jovens do carro de trás vieram empurrando o seu Palio na nossa direção. Logo, encostava, à nossa frente, o Gol do meu tio, único veículo incólume do cenário.
          "Boa noite!", disseram os jovens, enquanto pegávamos os macacos de nosso Ka e do Gol do meu tio. "Boa noite!", respondemos. "Os dois, também?", ao que respondemos, surpresos, "O de vocês, também estourou os dois?", "Foi, vocês querem ajuda?". "Muita gentileza", dissemos, "mas, e vocês?". "Estamos esperando uns amigos com um estepe extra".
          Pois bem, tirar o pneu, tão seguramente preso pelo borracheiro, não estava uma tarefa fácil, e resolvemos aceitar a ajuda. Enquanto mosquitos, muriçocas, pernilongos e quaiquer outros insetos voadores nos chupavam vorazmente, com mordidas bastante doloridas para o usual, tentávamos nos concentrar na dura missão de fazer sair os pneus. Tiramo-nos, enfim, e tenho certeza de que, se fossem dotados os pneus de sangue, teriam sido levados dali por aqueles vampiros minúsculos que nos chupavam o sossego.
          Você me vê a tecer queixas sobre mosquitos, e deve estar pensando que sou muito fresco. Diga, se não estava pensando nisso! Se não, agora está. Pois saiba que está redondamente enganado(a), caro(a) leitor(a). O meu quarto é um autêntico criadoudo de mosquitos, uma espécie de reserva ecológica involuntária, onde eu mato dez ou quinze por noite, mas nunca me livro delas. Outro dia, acordei e elas tentavam me jogar da janela, acredite-me! Em tempos de muita chuva, acordo pensando que tenho sarampo ou outra enfermidade que nos encha de pontos vermelhos ou caroços, mas depois descubro que se trata apenas de mordidas de muriçocas. Burro, eu? Não. É que o nem o repelente dá conta. E se a isso já estou acostumado, imagine-se em meu lugar, querendo me queixar de chupadas mosquitais.
          Mas, voltemos à nossa história. Enquanto eu pensava que, se eu fosse um sapo, não passaria fome por lá, nos deparávamos com a decisão de escolher onde colocar o nossa roda sobressalente. Calma, não é nada disso que você está pensando. A dúvida era se deveríamos, com o estepe, substituir a roda esquerda dianteira ou se a roda esquerda traseira. A resposta óbvia, claro, é a dianteira, já que seria inviável guiar o carro com um pneu dianteiro murcho. Mas o que faríamos atrás? Adotando a filosofia do "se colar, colou", testamos o estepe do gol, claramente maior e inadequado para nosso pequeno Ka 2000. Preciso dizer que nem entrou? Um é Ford e o outro é Volkswagen: um caso de incompatibilidade digno de um casamento.
          Chegou o socorro dos nosso amigos do Palio, e eles foram cuidar de suas vidas. É justo. Minha mãe foi no carro da minha tia, levando no colo minha pequena herdeira, e me deixando lá, onde seria, certamente, necessário. Cedendo o lugar para elas, ficou nosso amigo Sid, namorado de minha prima e, dada a força de nossos laços familiares, meu "cunhado".





          Devolvemos um dos pneus estourados, o que julgávamos mais destruído, para o carro ter, novamente, quatro rodas. Pensávamos estar preservando o outro, em melhor estado, para uma mais fácil recuperação, no dia seguinte.
          Na hora de ligar o carro, fizemos mais uma boa descoberta. Cadê a bateria? Ah! ela continuava lá, claro. Mas descarregada. Lá fomos nós a empurrar o nosso veículo ex-automotor, para ver se pegava. Mais de trezentos metros depois, chegamos à conclusão de que nossa musculatura extenuada era incapaz de levar tal projeto adiante, pelo menos não subindo aquela ladeira. Os relógios ingratos já contavam mais de quatro horas da manhã, o que fazia significar que já se superara a barreira das duas horas, desde o início do perrengue, lá no buraco. Peguei o triângulo, o entreguei a meu pai, e me certifiquei de que o freio de mão já estava bem puxado. Ficamos esperando o meu tio voltar com uma corda para nos rebocar.
          Já anêmicos, talvez mais pelos insetos do que pelo esforço, procuramos algum lanche ou água, dentro do carro escuro. Não encontramos. Logo, parou um carro, com um gentil senhor, muito bêbado, no volante.
          "Vocês precisam de ajuda?", "Obrigado, mas já estamos esperando alguém.". "Mas diga", insistiu o senhor, "diga alguma coisa, que eu faço por vocês. Fala aí, que eu faço!". Por um instante, pensei que pudesse ser alguma espécie de gênio da lâmpada, mas gênios da lâmpada não dirigem um Civic, pensei logo após. Na verdade, era apenas um senhor solícito e gentil, que em muito poderia nos ajudar se não estivesse tão bêbado. "Mas o que houve com vocês?", perguntou um jovem adolescente ao lado do motorista. "Cala a boca, Filipe!" e, para nós, "O que é que aconteceu com vocês", e respondemos, vagamente, que um buraco estourara nossos dois pneus esquerdos, mas já estávamos esperando ajuda. "Foi lá na saída de Caaporã?" Perguntou o simpático jovem. "Para de falar, Filipe! Foi saindo de Caaporã, foi?", "Foi, num buraco lá na saída. Nós e um pessoal num Palio". "Nós também acabamos de trocar os dois pne..." e, novamente, "Cala a boca, Filipe! Nós acabamos de estourar dois pneus lá. Ainda bem que eu ando com dois estepes. Mas, não é melhor vocês ligarem o pisca alerta, não?". "Não dá, porque a bateria do carro arriou", respondemos. "E o que é que eu posso fazer por vocês?", ofereceu, novamente, o senhor. "Nada, não, obrigado".
          Bem, chega! Eu vou resumir o resto da conversa, pq já está enchendo o saco. Depois de alguns "Cala a boca, Filipe!" e outros "Mas me diga, o que é que ou posso fazer para ajudar?", finalmente os convencemos, gentilmente, que o melhor favor que nos fariam era ir para casa, para dormir em paz, enquanto nós e os mosquitos esperávamos tranquilamente, sob as estrelas, a chegada da nossa ajuda oficial.
          Ufa! Depois de mais um tempo, finalmente chegou o meu tio, dizendo que cochilara no caminho, e foi salvo por um trecho esburacado, que lhe dera um susto logo antes de ele passar direto numa curva. Dirigir, sem ter dormido nada desde o início do dia, às quatro e poucas da madrugada é um bocado arriscado, especialmente se você costuma acordar às cinco da manhã. Acordando do buraco salvador para nós, vítimas do buraco assassino, ele teve uma epifania. Para que arrastar um carro por mais uns treze, quatorze quilômetros, se poderíamos deixar o carro num posto, em menos de três quilômetros voltando para Caaporã?
          Tá, tudo bem. Fazia todo o sentido do mundo. Mas e todo o trabalho que tivemos para carregá-lo até ali, não contava? Claro que não! Empurramos o carro, para manobrá-lo, e demos meia-volta. Vendo que desceríamos uma boa ladeira, resolvemos tentar acionar a bateria quando atingíssemos certa velocidade. Funcionou, mas ainda estávamos com um pneu a menos, e, tendo o cuidado de nos resguardarmos do buraco assassino, deixamos o carro no tal posto. Passando nossa bagagem para o carro do meu tio, encontrei, finalmente, dois squeezes com meio litro de água, cada, e uma sacola com biscoitos e outros pequenos lanches. Mas, cadê Sid? Ah, lá vem ele, vindo da loja de conveniência, com alguns pacotes de biscoito e água mineral.
          Bem, ajoelhou, tem que rezar! Comemos e bebemos dos recém-comprados. Protegendo-nos mais uma vez do perigoso buraco, passamos, com a nada sutil sensação de que aqueles outros carros por ali parados eram novas vítimas. Estávamos debilitados demais para parar e ajudar. Fomo-nos embora.
          Pensa que acabou por aqui? Nana, nina, não!





          Alguns quilômetros mais tarde, passamos por algo que mais me pareceu uma cana bem grossa, jogada no meio da estrada. Como estávamos entre plantações de cana, não me pareceu muito estranho, poderia ter caído de algum caminhão. Mas Sid, imediatamente, ao ver a cana, afirmou: "é uma jibóia"! Sem nenhum esforço, convenceu meu tio, seu sogrão, a fazer a volta e parar de frente para a cobra. Meu tio, carro atravessado no meio da estrada, pôs farol alto, e Sid desceu do carro. Andando lentamente, ele a agarrou pelo pescoço e rabo. Parecia ser uma filhote, pois tinha apenas algo como um metro e meio. Meu pai abriu a porta do carro e, logo que Sid entrou, fechou a porta.
          Fizemos novamente a volta, e seguimos nosso rumo, admirados com aquela criatura, e com a prática de nosso amigo com cobras. ^^
          Por um bom par de quilômetros, ficamos nos perguntando o que faríamos com aquela cobra. Certamente, não dava para dar de presente à minha filha, de três anos, ou meu priminho de um e meio. E nem creio que o IBAMA aprovaria se resolvêssemos fazer qualquer outra coisa menos perigosa com ela, apesar de que eu duvido que fôssemos ser fiscalizados.
          Passando por um cemitério no meio do mato, já dentro de Pitimbu, resolvemos deixar a cobra em seu habitat natural. As câmeras de nossos celulares não foram capazes de registrar este momento, apesar de que já despontava o sol, entre as nuvens de junho, no horizonte. Em cerca de quinze minutos, eu acho, já estávamos chegando à nossa casa, pensando em quão louca havia sido aquela noite, e quase sentindo falta dos mosquitos chupadores. Ah! E decididos a fundar a ASSMOQPEDOPENOMEBARESC - Associação dos Motoristas que Perderam os Dois Pneus Esquerdos No Mesmo Buraco Assassino da Rodovia Estadual na Saída de Caaporã, ou coisa que o valha. Pena que ainda não conseguimos contactar nenhum entre as muitas outras vítimas do Buraco Assassino!

ENFIM, FIM!


Epílogo:
          Peraí, tem mais:
          Com menos de três horas depois que eu capotei na cama, minha filha me acordou para tirar-lhe o pijama (na verdade, acho que, como ela foi dormindo para lá, ela estava ainda com o vestidinho de matuta), a fralda, e lhe fazer o café-da-manhã. Dei graças a Deus por minha mãe ter assumido a situação, porque, se não me lembro de que roupa ela usava, e do momento em que tirei sua fralda, acho que fiz tudo no piloto automático.
          Depois, no posto onde deixáramos o carro, fomos pegá-lo, e levá-lo a um borracheiro lá próximo. Fiquei conversando com uma garota, no posto, e temos trocado mensagens de celular desde este domingo. Penso em ir vê-la, quando for visitar o Buraco Assassino. Mas acho que logo poderei superar a Síndrome de Estocolmo, e poderei dar mais exclusividade a ela.

Pablo de Araújo Gomes, 25 de junho de 2009

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Mário e Leandra

     Mário e Leandra não eram um casal comum.
     Na verdade, nada neles era comum. Para começar, eles curtiam swing. Swing, vocês sabem, aquela parada de misturar os casais, ou de fazer ménage a trois, e por aí vai. Mas, nem segundo este padrão, eram um casal comum: não faziam distinção alguma entre homens e mulheres, casais homo e hétero, e, principalmente, não respeitavam quem não quisesse participar ou ceder seu parceiro para as suas "festinhas".
     Entre eles, as coisas costumavam ir bem. Sua maior regra era não ter regra alguma, e, por incrível que pareça, isso vinha funcionando.
     Tá, eu reconheço. Deve ser interessante poder cantar quem quiser, quando quiser, a qualquer momento, sem temer o fim do relacionamento. Mas, eu sempre lhes dizia, algum dia, isso há de causar problemas! E foi o que aconteceu.
     Não, não foi mau augúrio de minha parte, não. De forma alguma! Mas que eu avisava, ah, isso sim! Creia você, caro leitor, que, certa feita, ela o encarregou de cantar um negão, seu vizinho. Ele, claro, por muito pouco escapou de uma boa surra. Na verdade, o indivíduo, que era grande a ponto de quase ser dois, gostou tanto de Leandra, que se satisfez em dar em Mário alguns sopapos. Ah, claro, deixou-o de fora da brincadeira. Leandra não viu maior problema com isso, mas Mário pareceu não estar muito satisfeito, ali, parado, sem querer ver.
     Acho, mesmo, que foi por isso que resolveram parar com esta estória de swing. Resolveram, mas não pararam. Eu diria que estão, por assim dizer, mais convencionais. Pelo menos, mais do que antes. Ela, agora, faz as aproximações. Mário, descobriu-se, depois, ficou paraplégico, por conta dos sopapos, e não sente mais prazer além do de ver. Mas ele continua escolhendo parceiros, claro. E tem uma grande aposta num tratamento com células-tronco que acaba de iniciar.
     Espera-se que possamos voltar a vê-los (e, eventualmente, sermos abordados por eles) em algo como cinco ou seis anos. Coisas da vida.

Pablo de Araújo Gomes, 19 de junho de 2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Inferno de Cada Um - I

     Ele acordou, novamente, no meio da madrugada. Sentiu um arrepio desagradável lhe tomar a espinha. Era a mesma hora de sempre. Ele insistiu em se convencer de que era somente o seu relógio biológico que se havia acostumado a acordar naquele horário, mas não dava para se acalmar. Ele tinha de cor um repertório de filmes em que eventos macabros ou misteriosos aconteciam sempre na mesma hora, e tinha certeza de que era o que acontecia, agora.

     Levantou-se, andou um pouco pela casa, sempre à espera de algo inesperado. Sonolento, escorregou na escadaria, mas se segurou. Desceu calmamente. Espreitava pelos cantos da casa, na certeza de que encontraria alguém que não devesse estar ali. Deu um pulo ao notar que parecia não estar enganado. Havia mais alguém na casa.
     E seguiu esse alguém como uma sombra, desferindo-lhe um forte golpe na nuca.

     "Mamãe?"


     E agora? Ela estava ali, caidinha da silva, e a culpa era toda sua. Aquele corpo desanimado lhe aumentava o pavor: será que, por uma paranóia idiota, ele teria matado a própria mãe? Mas não podia!!! Não podia ser!

     Checou o pulso. Nada!
     Conferiu a respiração. Nada!

     Deus do céu! ele não podia ter matado a própria mãe!

     Não, não é que ele não aceitasse isso. E não aceitava, claro! Mas, enquanto o sono se desvanecia, tornava-lhe a razão. O verdadeiro problema era bem outro: sua mãe morrera havia dois anos! Como poderia ela estar ali, agora? E, pior, como poderia ele ter matado alguém que já não vivia havia anos?

     Pensou ele que só poderia estar sonhando. O corpo da mãe teria estado decomposto, não quentinho como ele notava. Aliás, não estava o corpo tomado pela decomposição, mas não tinha nada de quente. Teria, mesmo, ele matado a defunta?

     Também isso não fazia sentido. Mas, e se fizesse? Será que ela passaria a retornar para puxar seu pé, no meio da noite? Ou voltaria para lhe pôr de castigo por seu mau comportamento?

     Ou será que era possível que ele matara a sua mãe também da vida espiritual? Será que ele acabara com toda a sua existência?!?!

     Olhou novamente para aquela figura pálida caída ao chão. Ela não parecia em nada cadavérica. Aliás, começava, até, a se levantar. Ele piscou os olhos, e os esfregou, também. Não podia crer: quando ela morreu, ele pensou que nunca mais a veria em vida.

     Caramba! Teria ele também morrido?!?!

     Súbito, correu escadaria acima, em direção do quarto, e não viu nada. Seu corpo não estava lá. Ufa! Ele não morrera enquanto dormia. Voltou lá para baixo, para encontrar sua mãe. Ela não estava mais lá na cozinha. Foi para a sala, onde a encontrou chorando.

     "Mamãe?", ela não respondia. "Mamãe, me perdoe! Eu não sabia que era você. Eu não queria bater na senhora." Mas ela não parecia chorar de tristeza. "Mamãe?" Ele se aproximou, e ela lhe deu um forte abraço. Um forte e muito quente abraço. Ele se sentiu muito culpado, pois quase a havia matado novamente, dessa vez sem querer, dois anos depois. Desde então, sempre acordava na hora exata em que a matara. Ao pensar nisso, sentiu que o abraço esquentava rapidamente. E esquentava mais, e mais.

     Tentou livrar-se daquele abraço quente. Sua mãe começava a rir aos berros, gargalhando mais e mais, e o abraço não afrouxava. Ele, então, tentando se livrar, viu o seu corpo caído ao pé da escada. Como poderia não ter notado? Quanto mais ele tentava se livrar, mais altas eram as gargalhadas. Quanto mais tentava rezar, mais o abraço o apertava. Quanto mais se desesperava, mas o abraço o queimava. E assim foi até se tornar tão insuportável, tão terrível, que não era capaz de sentir mais nada.

     E então passou. Tudo se apagou. Nada mais havia além do silêncio. E ele sentiu que teria de esperar, que nada mais poderia fazer além de esperar, indefinidamente. Eternamente. Porque não pudera esperar pela herança; porque ele não pudera esperar nada durante toda a vida. Porque ele nada mais poderia fazer em sua existência, enquanto não aprendesse a esperar.


Pablo de Araújo Gomes, 11 de junho de 2009